Este é o nosso Manifesto de aparição. Surgimos psicólogas, psicólogos, terapeutas e cuidadores, que têm na amizade, no amor, no trato gentil o nosso lugar de acolhimento e acalmamento. Nossa semeadura é o cultivo da atenção plena e a prática da compaixão por todos os seres (incluindo nós mesmos). As ciências contemplativas fundamentam nosso fazer e fortalecem o nosso querer ser. Desejamos desabrochar numa comunidade de aprendizes comprometidos com toda a forma de vida senciente, incluindo aí os rios, os mares, as plantas, as árvores, as pedras, os desertos e as montanhas. Estamos co-irmanados com os despossuídos, os desvalidos, os agredidos, os condenados da Terra. Dos povos originários multicoloridos manifestam-se nossos professores e professoras pretas, pardas, brancas, vermelhas e amarelas. São inteligências vindas de todos os tempos e continentes, seres abundantes e majestosos que nos convidam a não mais adiar este (re)pouso e enraizamento.
Queremos seguir aprendendo a contra colonialidade e a confluência, ao modo como Antonio Bispo dos Santos nos ensinou. Queremos anti-capitalizar para ajudar a tornar os nossos vastos corpos explorados em corpos de resistência e enfrentamento. Queremos ver com os olhos da interdependência e da coemergência, tal como Monja Coen e Lama Padma Samtem propagam pelos quatro cantos. Queremos aprender a ter memória longa e forte e usar a palavra como flecha, tal como Davi Kopenawa o faz.
Queremos trilhar o caminho do Bodisatva e completar a perfeição de seus dez passos magistrais. Queremos evitar o abismo dos dez passos equivocados de corpo, fala e mente tantas vezes avisado pelo Honrado dos Mundos. E assim, nosso Manifesto é desejo extremado para que este lugar de existência coletiva se expresse como uma enorme Terra Pura Sem Males.
O sol brilha e nos aquece. A lua não nos abandona e as constelações seguem ornando o céu. A Terra, nosso pálido ponto azul no cosmos, segue nos oferecendo sua morada. Tudo o que não inventamos é inteligente, perdura e tende ao equilíbrio. Somos em 8 bilhões de seres humanos e incontáveis outras formas de vida que se manifestam como maravilhas da natureza. Fazemos arte, criamos cultura, desenvolvemos tecnologias, inventamos cidades, nos agrupamos e aprendemos. Nos beijamos, abraçamos, desejamos sorte e felicidade, nos alegramos com as conquistas dos outros e somos basicamente generosos. E escrevemos Manifestos…
O nosso Manifesto é a favor da vida e da senciência e contra algo, uma atitude, um tipo muito particular de delírio delusivo! Insurgimo-nos definitivamente contra uma forma contemporânea de pensamento único que reflete um tempo onde os homens (como gênero e não espécime) serão os responsáveis por mais este fim do mundo. E esse fim será apocalíptico ou catastrófico para uma imensidão de formas de existência. O clímax disso tudo parece nem ser a própria destruição final, mas um tal de "ponto de não retorno", que só serve para nos deixar coletivamente mais tensos, angustiosos e deprimidos.
Tendo em vista a contínua dialética entre cosmovisões emancipatórias e visões estreitas e destrutivas, nós, psicólogas e psicólogos, terapeutas e cuidadores budistas e contemplativos, nos voltamos para o sofrimento do mundo, reconhecemos suas incontáveis formas de manifestação e nos comprometemos com sua resolução. Nossa conexão por linhagem ininterrupta de seres que investigaram a própria mente remonta os tempos de Buda Shakyamuni e se estabelece na magistral tradição da Universidade de Nalanda.
A partir desta tradição o centro de nossa cosmovisão se estabelece a partir de quatro compreensões magistrais que nos ajudam a gerar confiança e a prosseguir.
A compreensão simples e direta de que as nossas crises, sofrimentos pessoais e coletivos são um condicionante da existência como a vivenciamos. A realidade é intrinsecamente oscilatória entre satisfação e insatisfação e temos a tendência de gerarmos desejo e aversão por aquilo que sentimos como sendo bom ou ruim.
Uma sugestão de estudo e pesquisa contínuos sobre o que torna essa condição humana tão massiva. Qual a sua origem? Por que estamos tão envolvidos com esse tipo de ignorância que nos põe no cansativo e incessante jogo do ganha-perde? Esta circularidade tem o nome de cadeia ininterrupta de causa e efeito baseada em doze nidanas — formas interdependentes do estabelecimento da vida como insatisfação básica.
A confiança pragmática de que esse quadro de desolação tem solução. Aqui praticamos a atenção plena e profunda e entendemos o tipo de esforço que devemos fazer para nos movermos em direção da sustentação de formas de vida que sejam realmente anti-separativas e completamente inclusivas.
A abertura para trilharmos esse caminho, que combina diretamente com um tipo de ação que exige reconhecer a importância de seguirmos por um roteiro de auto-organização e ativismo no mundo baseado em oito passos de reconciliação com a nossa natureza criativa e livre da agressão — praticada como quem se reconhece num mandala de múltiplas sabedorias.
Sustentados por essas compreensões e confianças, intencionamos estabelecer nossa agenda por uma psicologia contemplativa pós-apocalíptica e contra-colonial que se estabelece em conexão com três principais eixos de ação:
O estabelecimento de estudos voltados para a fundamentação do nosso fazer e que resultem em métodos e técnicas clínicas e psicoterápicas baseadas nos princípios da psicologia budista e das ciências contemplativas integradas às modernas abordagens em psicologia e saberes contra-coloniais e anti-capitalistas.
A produção de conhecimentos baseados em processos de aprendizagem, diálogos transdisciplinares e multiculturais, muita pesquisa e comunicação científica.
O engajamento e o posicionamento em relação a tudo que se apresente como ameaça à integridade de toda forma de vida, embasados pelos referenciais da cultura de paz e de justiça social.
E assim, eis o nosso Manifesto. Nossa natureza nos aponta para a realização e felicidade e nos afasta da dor e do sofrimento. Por isso, estamos preparadas para este momento. Sentimo-nos como a velha e retorcida ameixeira de Eihei Dogen, que sobrevive em meio ao inverno e faz brotar flores de cinco pétalas, e de repente nossos olhos passam a ver a primavera!
"Se você se sentiu tocada, acessado, validado por nossa cosmovisão de uma psicologia contemplativa pós-apocalíptica, aproxime-se e una-se a nós! Vamos crescer e inventar, vamos nos manifestar e praticar o autocuidado. Precisamos muito de ajuda, você não?"
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